Cultos, Seitas, Nova Era & Jim Jones

O mundo ficou chocado, em 1979, por causa do suicídio coletivo de uma comunidade espiritual liderada por Jim Jones, em Jonestown, na Guiana. Você poderia comentar sobre este evento e como ele se aplica, especificamente, a comunidade do Pathwork  e ao movimento da Nova Era, em geral? Poderia nos dar orientações sobre como continuar a tarefa de autopurificação, enquanto grupo – especialmente aonde possam existir forças do mal agindo em nome de Deus e da verdade?

O Guia: Em primeiro lugar, deixe-nos distinguir o que é uma comunidade espiritual e o que não é. Um grupo de pessoas pode se autodenominar uma “comunidade espiritual”, mas isso não quer dizer que ela realmente o seja. Será que não lhes foi ensinado que muitos falsos profetas aparecerão? Os temores que surgiram na sua comunidade, devido a este terrível abuso de poder que aconteceu na Guiana, no grupo o qual você está se referindo, decorre de uma grande confusão interior e desconexão.

Todos vocês sabem que uma pessoa espiritual e emocionalmente imatura teme e rejeita a autorresponsabilidade tanto de forma restrita quanto no sentido mais amplo, ou seja, de prover o sustento de suas necessidades diárias, assim como, nos níveis mais sutis de responsabilidade moral, incluindo áreas que ninguém vê  ou conhece.

A busca constante pela verdade interior de toda  questão relativa a si mesmo, aos outros e ao universo, estabelece um canal direto com a Verdade no qual a sua única autoridade se torna Deus e a Sua vontade.

Para aqueles que temem esse caminho e desejam adiá-lo – ainda que, mais cedo ou mais tarde, todos trilharão esta estrada – saibam que, existem vários estágios de desenvolvimento.

Para simplificar um pouco, vamos começar com o nível mais baixo, que é uma recusa absoluta de crescer e de se tornar  independente. Essas pessoas vão procurar líderes humanos com poder.

Quanto mais esses dirigentes abusam do poder, mais eles atraem aqueles que abrem mão  da sua individualidade e autonomia. Esses falsos mestres fazem promessas e seus seguidores culpam aqueles que são supostamente a causa do seu sofrimento pessoal. Tudo isso é muito atraente para as pessoas que se recusam a assumirem sua autorresponsabilidade.

Em seguida, dentro dessa escala, estão aqueles que já se esforçam para viverem em um estado mais independente, vivenciarem uma certa autonomia, mas que ainda não sabem como alcançá-la. Isso ocorre porque existe uma outra parte interior que  ainda deseja estar sob a tutela de uma autoridade poderosa dando-lhes tudo o que a sua vontade propria e sua miopia desejam. Este aspecto está ativo no seu interior de forma inconsciente. Essa atitude leva a uma constante rebelião, medo e desconfiança da autoridade. Esta síndrome é explicada em detalhes na Palestra do Guia Pathwork  # 46 – Autoridade.

O indicador deste conflito interno é expor essa parte interior que resiste à autonomia e anseia por uma figura de autoridade humana onipotente que o proteja do seu carma; das dificuldades da sua tarefa; da dificuldade normal de lidar com a realidade em que você nasceu; das conseqüências de suas imperfeições; da necessidade de transcendê-las a fim de compreender, de se conectar e de transformá-las a partir do trabalho que isso acarreta; do medo existencial da morte, da doença e da dor.

Nessa sua parte secreta, assim como aqueles que estão no primeiro nível, você deseja uma autoridade poderosa que lhe prometa respostas fáceis. Dessa forma, você culpa os outros pelo seu sofrimento que se aprofunda à medida que você resiste ao fluxo da vida. Esse tipo de liderança  não existe apenas em comunidades espirituais – para ser mais preciso, semi-espirituais. Frequentemente, elas são encontradas em movimentos políticos autênticos ou dissimulados.

Seu medo e desconfiança de líderes e figuras de autoridade deriva da sua falsa necessidade de abrir mão da sua autonomia em favor de um falso governante. Então, isso se manifesta na forma de um profundo ressentimento contra o verdadeiro líder que o orienta em direção a autonomia real e o faz ficar cara-a-cara com todos os aspectos da autorresponsabilidade mencionadas anteriormente.

Em outras palavras, se você está interiormente dividido entre o desejo de individualidade e, ao mesmo tempo, anseia por um dirigente que lhe promete uma cura fácil para tudo, você vai desconfiar de ambas as partes. Legitimamente, você desconfia do falso mestre, mas projeta seu desejo ilusório infantil naqueles em quem você pode confiar. Você se ressente e desconfia desses, exatamente,  porque eles desejam libertá-lo de sua dependência e fraqueza.

Nenhuma comunidade espiritual está verdadeiramente a salvo de erro e de algum tipo de distorção ou perigo se não estiver sondando constantantemente suas profundezas; se não der grande importância aos  processos de purificação; se não estiver promovendo a autonomia de seus membros. E a autonomia não é meta principal deste caminho? Você está sendo incentivado a aceitar cegamente quaisquer preceitos ou ensinamentos?

Você não está constantemente sendo encorajados a questionar: “qual é a verdade?” em todas as questões da sua vida cotidiana? Existe alguma outra maneira de descobrir a verdade de Deus, desistir da vontade própria do ego, e render-se à vontade e à verdade de Deus? Não é esta a única maneira que você pode estabelecer a autoconfiança, a integridade, a autonomia e o seu próprio canal com o divino?

Se você pensar logicamente sobre isso, você terá que chegar à conclusão de que não há outra maneira, quer você viva em uma comunidade ou sozinho.

Sua confusão a esse respeito precisa ser confrontada pela verdade, pois não pode haver confusão. É tudo muito claro.

Quanto à lição universal que todas as comunidades espirituais – e o mundo em geral – poderiam aprender com este trágico acontecimento (da seita de Jim Jones), a perspectiva não é muito favorável neste momento. As conclusões são tão superficiais, tão fora da verdade que, às vezes, são surpreendentes.

O consenso geral é de desconfiar de todos os grupos espirituais, desconfiar de toda liderança, ao invés de mergulhar um pouco mais a fundo e olhar,  especificamente, para os objetivos e as práticas, bem como para seus resultados. Mas os seres humanos não querem pensar por si mesmos. Isto nos traz de volta ao início do círculo completo, exatamente no ponto de onde partimos.

A falta de um pensamento claro, de esforço independente para tirar conclusões lógicas, é parte da preguiça que leva alguém a ter uma necessidade neurótica de estruturas de poder abusivas, simultaneamente temida e suspeita, é claro.

As lições que devem ser claramente percebidas e compreendidas são precisamente o que expus aqui nesta resposta.

(Perguntas e Respostas # 257)

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