A Queda dos Anjos

Como  a substância divina que cada ser originalmente era foi sendo coberta por camadas?

O Guia: Essa é a história da queda dos anjos (outro nome pelo qual esses seres puros, semelhantes a Deus, ou Espíritos Santos, são conhecidos). Mas antes de entrar nessa questão, eu gostaria de dizer que é um grande erro supor que essa substância divina, existente em todas as pessoas, é Deus ou é idêntica a Deus, o Criador.

Deus é um Ser e a substância que vocês têm é divina e tem muitos atributos divinos – embora não seja no mesmo grau que o próprio Deus. Somente quando essa substância for purificada e liberta é que vocês poderão se unirem a Deus e tornarem-se UM com o Criador. Nenhuma substância que seja diferente pode unir-se a Ele. É um erro confundir a substância semelhante a Deus, existente em toda criatura, com a substância do próprio Criador.

Com frequência, as pessoas defendem a ideia de que Deus não deveria ter dotado Suas criaturas de livre arbítrio pois assim a queda não teria acontecido. Ou, pelo menos, Deus deveria ter interferido quando tudo começou. Mas isso é uma visão curta; isso é cegueira.

Só pode haver felicidade para uma criatura no estado de união com Deus. E para estar em união com Deus, vocês precisam ser da mesma substância, dotados dos mesmos aspectos e qualidades. Caso contrário, a união é impossível – mesmo do ponto de vista químico é impossível! Como Deus é liberdade e a liberdade é um aspecto divino dos mais importantes, as criaturas de Deus precisam ter essa mesma liberdade, caso contrário seriam diferentes de Deus e, assim, incapazes de unir-se a Ele. O problema é que de posse dessa liberdade (ou livre-arbítrio), existe sempre a possibilidade de usa-la para contrariar a lei divina.

Na livre escolha correta e na abstenção do abuso do poder reside a divindade, residem o amor, a sabedoria e muitos outros atributos divinos. É da maior importância que vocês entendam esse conceito pois, dessa forma poderão encontrar as respostas para muitas das perguntas que, por enquanto, ainda não foram corretamente compreendidas.

Deus também criou um número infinito de leis. Essas leis previam a possibilidade do retorno a Deus se e quando qualquer um dos seres criados fizesse mau uso de seu poder e liberdade.

Essas leis funcionam em ciclos que precisam se fechar. O que quer que aconteça, esses ciclos seguem seu fluxo, e as leis operam de tal forma que, em última instância, tudo que um dia se afastou de Deus – da lei divina -, voltara para Ele.

Quanto maior a distância de Deus, maior a infelicidade, pois apenas em Deus e com Deus existe felicidade. E é exatamente essa infelicidade que constitui o incentivo mais forte para retornar para Deus. Esse conhecimento deve ser alvo de profunda meditação.

Os mundos espirituais existiram por muito, muito tempo, e todos os seres criados viviam num estado de contentamento que vocês não podem imaginar. Desde o início, todas as criaturas tinham a possibilidade de escolher livremente entre viver de acordo com a lei divina ou opor-se a ela.

E foi então que um espírito sucumbiu a essa tentação. Simbolicamente, vocês contam isso na história de Adão e Eva no Paraíso. Na verdade, isso aconteceu de maneira diferente, embora a ideia esteja correta.

Talvez vocês possam compreender parte disso se imaginarem que vocês têm um grande poder. Pode ser que saibam que usar esse poder de uma determinada forma poderia ser perigoso para vocês. Enquanto esse poder não for explorado, vocês podem ter curiosidade em saber o que de fato ocorreria se o usassem. A tentação vai ficando cada vez mais forte. E quanto mais forte ela fica, menos vocês pensam nos meios de combater a tentação.

Vocês nem mesmo têm a intenção de continuar a usar o poder, só querem experimentar um pouco, só para ver. E todo o conhecimento teórico que tiverem – depois de experimentar, talvez não seja possível não se deixar levar por ele – desmorona sob o peso cada vez maior da tentação.

Depois que o primeiro espírito sucumbiu a essa tentação, algo foi colocado em movimento que já não era mais possivel mudar, exatamente como ele sabia que aconteceria, mas que escolheu não se lembrar quando cedeu.

O resultado não foi uma mudança imediata, porém, gradual. A passagem da harmonia para a desarmonia aconteceu de maneira tão gradual e lenta como acontece com o retorno da desarmonia para a harmonia. Esse é o processo de evolução. Aquele, poderia ser chamada de involução – e nenhum dos dois pode acontecer repentinamente.

Gostaria de dar outro exemplo que pode ajudar a compreender o que estou explicando. Vamos supor que uma pessoa fique tentada a consumir uma droga. Ela não tem intenção de sucumbir inteiramente. Também sabe, como todo o mundo, que isso significaria sua ruína, em todos os aspectos. Mas ela acha que pode experimentar só uma vez, para ver como é. Mas depois dessa primeira vez, não consegue mais se livrar. Foi apanhada. Esse é apenas um exemplo aproximado do que estou tentando dizer, porém, na essência, é o mesmo princípio que se aplica. O mesmo princípio se aplica a tudo que é contrário à lei divina.

Esse espírito que foi o primeiro a sucumbir, gerou um poder que vai em direção contrária à lei divina, mas continua sendo o mesmo poder: apenas seu uso é diferente. E com esse poder, ele pôde afetar e influenciar muitos outros espíritos, pouco a pouco – mas não todos os espíritos. Então, houve uma divisão entre os que sucumbiram e os que resistiram. Com esses primeiros espíritos, iniciou-se a chamada queda dos anjos.

Nesse processo, todo aspecto divino transformou-se em seu oposto: harmonia tornou-se desarmonia, beleza — feiúra; luz – escuridão; sabedoria – cegueira; amor – ódio, medo e egoísmo; submissão–subserviência; e,  união transformou-se em separação. À medida que a unidade foi se dividindo mais e mais, a força dessa “atração” foi aumentando. Assim, o mal passou a existir.

Expliquei certa vez que os mundos espirituais são mundos psicológicos. Isso não significa que sejam sem substância ou forma. Muito pelo contrario. Apenas no seu mundo material os pensamentos e sentimentos são abstratos. Em outros mundos, o espírito cria o mundo em que vive, de acordo com seu estado mental. Esse estado mental cria, automaticamente como numa ação reflexa, uma esfera formada por paisagens, casas, objetos, etc. Assim, somente espíritos de desenvolvimento semelhantes podem compartilhar do mesmo mundo, o que em determinados estados de desenvolvimento facilita a vida, mas também torna a evolução mais lenta.

Se vocês tiverem consciência de que suas atitudes, pensamentos, sentimentos, opiniões, metas, criam o seu mundo, entenderão que os mundos espirituais mais elevados são belos e luminosos, enquanto os mundos dos espíritos caídos são escuros e feios. E desde que o grande plano foi colocado em funcionamento, existem, entre o escuro e o claro, muitos mundos com graus variados de harmonia e desarmonia, conforme o estado de desenvolvimento que os espíritos caídos tiverem alcançado. O seu mundo material é um deles.

A maioria de vocês sabe que o espírito em seu mais alto grau de desenvolvimento combina os aspectos masculino e feminino. Não existe separação. Também mencionei isso no início desta palestra. O fato de existirem homens e mulheres neste planeta, como entidades separadas é, como vocês agora podem compreender, o resultado dessa divisão que aconteceu na queda.

Portanto, cada ser tem a sua contraparte. O impulso do ser humano para encontrar o(a) parceiro(a) certo, nada mais é que esse profundo anseio insconsciente pelo reencontro com a sua outra parte, separada no processo da queda. Todo ser passa por algumas encarnações com seu verdadeiro duplo, ou contraparte, porque, através da felicidade que isso acarreta, reside o dever de preencher alguma coisa.

E algumas outras encarnações precisam ser vividas sem essa contraparte. Nesse caso, também existe um preenchimento, mas de outro tipo, que não significa necessariamente uma vida de celibato. Pode haver outros parceiros com os quais não só é possível usufruir de uma grande felicidade, mas também cumprir outros deveres, resgatar carmas, e assim por diante.

Portanto, se vocês passarem uma encarnação sem o seu verdadeiro duplo, mas tiverem outro parceiro com o qual têm algo a cumprir, não pensem que a sua contraparte no mundo espiritual vai ficar magoada ou sentir ciúmes por causa do amor que vocês tiverem pelo parceiro atual. Não, não é assim que as coisas funcionam na realidade absoluta.

Aprender a amar é dar um passo em direção a Deus, a propria realização, a sua libertação e, assim também, da sua contraparte. O sexo – o impulso por esse tipo de amor – é, em síntese, o anseio pela união com a sua contraparte, para restabelecer o todo. Dessa forma, essa autorrealização depende da forma como você direciona essa força.

Seres menos desenvolvidos, como os animais, as plantas e os minerais, ainda estão em um estado de maior divisão ou cisão. O estado do ser humano, dividido em dois, por assim dizer, é a última forma antes de poder acontecer o reencontro, a volta ao estado de união que a criatura já teve um dia.

Os mundos desarmônicos que passaram a existir através dessa cisão de Deus, da chamada queda, também são chamados inferno. Esses mundos simplesmente refletem o estado de espírito das criaturas que ali vivem; ou seja, essas esferas passaram a existir como resultado direto do estado de espírito desses seres.

Mas o inferno não é penas uma esfera, pois ali existem muitas esferas, assim como existem muitas esferas no mundo divino, o chamado céu. Quando ocorreu a queda, nem todos os que participaram passaram para um estado igual de desarmonia e mal. Houve muitas gradações, conforme os indivíduos.

Assim, também como resultado automático, passaram a existir diferentes esferas no mundo da escuridão, sempre em correspondência com o estado mental de cada um. Mas no todo, pode-se dizer que cada aspecto divino se transformou – um pouco mais, um pouco menos – em seu contrário.

Enquanto não se dá a purificação completa, algumas das características da queda continuam dentro da pessoa, até certo ponto. Seria extremamente útil se cada um de vocês fizesse um autoexame para sentir isso claramente e, assim, trazer esse estado à consciência. Quando vocês considerarem suas falhas individuais, procurem encontrar seu aspecto divino original. Nenhuma falha passou a existir por si mesma. Ela é apenas uma distorção de algo que, um dia, foi divino. Vocês podem encontrar esse aspecto divino das suas falhas.

Dessa forma será muito mais fácil purificá-las e, ao mesmo tempo, vocês perderão a sensação de impotência em relação a si mesmos. Perderão os complexos de inferioridade. Mas isso exige que, primeiro, vocês descubram quais são as suas falhas e, em seguida, as enfrentem com coragem.

Quando esses mundos de infelicidade passaram, gradualmente, a existir e ocorreu a separação de Deus para um grande número de seres, como eu já disse, a Lei Divina previu a possibilidade de reconquistar o estado de existência feliz em que esses seres um dia se encontravam.

Mas foi preciso tomar algumas decisões e fazer algumas mudanças, sempre de acordo com o livre arbítrio dos espíritos caídos, individualmente ou em grupo. Isso também foi previsto por Deus, que determinou que a questão ficaria em aberto na ocasião, para ser concretizada oportunamente.

Tudo isso faz parte do plano da salvação, para o qual Deus arregimentou a ajuda de todos os espíritos que permaneceram fiéis a Ele, bem como daqueles que atingiram e continuam atingindo desenvolvimento suficiente, depois da queda, para também ajudar. A esse respeito vou falar na próxima palestra.

Pensem com cuidado em tudo o que eu disse até agora, mesmo que ainda faltem algumas informações para completar o quadro básico para vocês. Mesmo com esse quadro incompleto, vocês vão encontrar a resposta para diversas perguntas, se se derem ao de pensar profundamente, meditar e pedir a ajuda de Deus para entender.

Quando tiverem adquirido essa compreensão, vocês terão condições de entender o que a vida realmente significa, a razão da existência de vocês aqui nesta esfera, e sua tarefa pessoal nesta vida. Dentro desse plano, não há pessoa que não tenha uma tarefa! Quem quer que tenha paz de espírito descobrirá sua tarefa. Quem não tem, ainda não descobriu seu lugar. O eu mais íntimo de vocês lhes dirá se vocês a descobriram ou não, e essa comunicação é feita através da harmonia ou da inquietação. Tudo que vocês precisam fazer é perguntar a si mesmos.

Se vocês ainda encontraram inquietação, pressa, nervosismo, falta de paz de espírito, peçam a ajuda de Deus, fiquem abertos para poderem compreender a Sua orientação. O obstáculo que ainda pode haver entre vocês e a realização completa da sua tarefa de vida pode ser o seu desenvolvimento pessoal.

Suponhamos, por exemplo, que um ser em seu estado perfeito apresentasse a qualidade divina de uma grande força do amor, o fogo do amor divino. No processo da queda, essa força do amor iria se tornar o seu oposto – o fogo do ódio e da maldade. Assim sendo, um tipo muito desarmônico de um universo impetuoso passaria a existir. Como você pode ver, as lendas não são tão irreais, olhando desse ponto de vista.

Vamos supor que um outro indivíduo em seu perfeito estado de desenvolvimento apresentasse a particularidade para o julgamento sábio, a serenidade e a reflexão desapegada. Esses atributos permitiriam que este Ser promovesse a criação divina de uma maneira particular através do lento desdobramento desse poder criativo. Porém, dirigindo a sua força na direção oposta, esse poder criou um mundo de frieza impiedosa, de escuridão gélida e desolação.

Existem muitos exemplos de como os atributos divinos se tornaram os seus opostos e criaram infinitas esferas correspondentes no mundo das trevas, exatamente como acontece no mundo divino.

Estas esferas de fogo ou de frio gélido – no sentido espiritual, é claro – são apenas dois exemplos. Há esferas de lodo e sujeira, esferas de intenso sofrimento através de superlotação ou do isolamento, e muitas, muitas outras variedades.

Talvez vocês sejam cegos para alguns aspectos da própria personalidade, e isso é um entrave para a autorrealização. Portanto, não procurem as respostas longe de vocês. É em vocês que estão todas as respostas necessárias para conduzir a vida do modo que agradará a Deus.

 

(Palestra do Guia Pathwork #20)

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